terça-feira, 22 de julho de 2014

A PARTILHA - capítulo XXI do livro OI, BICHO! de Jan

XXI - A PARTILHA

Numa crise conjugal que culminou com a separação de um casal, sobrou-me um cãozinho muito fofo que estava em meio a uma séria crise pessoal.
Ele mesmo vai contar como veio parar aqui.

CRISE DE IDENTIDADE

Ainda me lembro: eu era um filhotinho e, de vez em quando, ficava hospedado num apartamento vizinho. Um dia, eu fiquei, fiquei... e não vieram mais me buscar.
Fui “largado”...
Fiquei muito bem: ali eu tinha um pai, uma mãe e até um irmãozinho, todos humanos.
Ah! Talvez eu tenha me esquecido de dizer que sou um cão: um cãozinho pequeno, destes que se cria dentro das residências.
Aquela família me tratava bem e eu tinha até “vovó”. Às vezes, me levavam para visitá-la. Eu até dormi na casa dela algumas vezes.
Viajávamos bastante. Eu ia bem quietinho no banco de trás, junto com meu irmão humano, enquanto "papai" dirigia o carro.
E assim, fui levando a vida, ou talvez a vida tenha me levado, durante alguns anos, e me transformado no “cachorrinhão” que sou hoje: muito bonito!
Um dia notei que meus pais humanos não estavam bem e senti que minha família humana se desmantelava. O medo tomou conta de mim, pois sei que cães costumam “sobrar” nessas ocasiões.
E “sobrei” mesmo! Provisoriamente, fiquei na casa daquela vovó. Fui ficando... ficando... e fiquei!
Gosto daqui, mas eu não sou um pacote! Fiquei revoltado e tornei-me um cãozinho estressado e aparentemente agressivo.
Só sei que estou me sentindo perdido como aqueles cachorros que caem do caminhão de mudança.
Passei boa parte da vida, sendo o único cão da casa... e sou cão de guarda por instinto!!!
Aqui tenho três irmãos caninos: um cachorrão grandão, uma cadela menina/moça de tamanho médio e um pretinho pequenininho.
O pretinho pequenininho vive dentro da casa como eu e, lá fora ficam os outros dois.
Meu problema maior é o grandão, lá fora. Ele me irrita pelo seu jeito de ser, tranquilo e seguro. Será que vai mandar em mim só porque é grande e chegou antes de mim???? Eu não quero!!! Fico “puxando briga” e ele sai de perto... Aí fico bravo de verdade!
Sei que ele é do bem e lá no fundo até que gosto dele. Mas eu preciso me impor e liderar a matilha toda desta casa, para que me sinta seguro... É mais forte do que eu.
Por outro lado, tenho muito medo de “cair do caminhão” novamente, pois acho que não vou suportar. Já sou um senhor de quase meia idade e preciso mostrar serviço para não perder esse lar... cada cão aqui já tem uma função definida. E eu???? Serei sempre o que sobrou?!?!
Ei!!!!! Acudam! Estou em crise de identidade!!!!!!


      - “Ele é o guarda da vovó”. Afirmava meu neto mais novo.

É... O Bidu me seguia pela casa durante todo o dia e à noite ele ficava atento a qualquer som estranho dentro da casa.
O Bidu tornou-se o guardião do meu sono, aqui dentro na escuridão.
  Mostrou-se sempre cuidadoso, atento, carinhoso e obediente, espantosamente obediente, apesar de estressado!
      Fiquei muito triste quando o Bidu apresentou uma tosse esquisita e o Veterinário suspeitou de doença cardíaca, a qual foi confirmada através de um eletrocardiograma. Um mês depois, apesar de todos os cuidados médicos o Bidu morreu. Insuficiência cardio-respiratória.

Quando desistiu de lutar, Bidu veio deitar-se encostado em mim e pude sentir a última batida do coração dele... então a Luna e o Dog, que estavam agitados, acomodaram-se em suas respectivas caminhas.



Eu tinha demorado mais de um ano p'ra conquistar a confiança do Bidu.
Ele não me escolhera p'ra viver, mas me escolheu p'ra morrer. Isto e mais a atitude tranquila dos outros cães causaram-me um mix de emoções.


Perdoem-me, amigos... mas faz pouco tempo e ainda dói muito.
:-( :-( :-( :-(
Se virem alguma estrelinha por aí, pode ser o Bidu, pois ele está fazendo parte de alguma constelação.
Sem crise! 
;-)


Nenhum comentário:

Postar um comentário


Gostou ?????