domingo, 29 de junho de 2014

POSSO ESCLARECER? - CAP. XVI - finalizando a PRIMEIRA PARTE do livro OI, BICHO!

XVI– POSSO ESCLARECER?

Agora fiquei confusa com tantas emoções, e você leitor, pode estar confuso com tantas informações.
Vamos recapitular, com a ajuda do Theo:

OS PULOS DO GATO
 

Meu pai era um Siamês e minha mãe era um belíssimo exemplar da raça Sagrado da Birmânia. Desse cruzamento, eu nasci num abençoado dia de novembro, numa ninhada de seis gatinhos.
Quando eu ainda estava com mamãe Kika, aprendi a usar a bacia com areia higiênica existente na casa, afinal não quero meu lar sujo e mal cheiroso. Só espero encontrar a bacia com areia sempre no mesmo lugar.
Pouco tempo depois, deixei de ser um gato para ser O gato: eu tinha pouco mais de um mês, quando fui entregue a uma família de humanos que se tornou a minha família. O apartamento onde moravam tornou-se minha casa. Deram-me o mesmo nome do meu pai, mas eu era “o gatinho Theodoro” e, imagino que para simplificar, chamaram-me de Theo.
Minha família humana sempre me respeitou e confiou em mim, o que me levou a confiar neles e respeitá-los.
Tenho três irmãos humanos, pois temos, todos, a mesma mãe humana. Eles não são da mesma espécie que eu, mas o sentimento que nos une é o mesmo e chama-se amor.
Já sou grande e todos saem. Eu fico sozinho, mas não faz mal: gosto da companhia de mim mesmo e sei que eles sempre voltam.
Certa vez observei-me no espelho e vi que sou bonito: sou marrom, bege e preto, como um gato siamês; tenho a pelagem densa, a musculatura forte e as patinhas brancas como um gato birmanês; e, tenho os olhos azuis, como as duas raças de cujo cruzamento nasci.
Fico furioso quando algum estranho invade minha casa. Quando minha família humana está ausente e eu ouço barulho na porta chego perto e, se algum estranho abrir, só entrará na casa por cima do meu cadáver!
Às vezes, eu vou junto passear de carro, e é tão bom!
Agora eu já tenho nove anos e percebo uma rotina diferente: eu já não fico sozinho e nem saio de carro. Minha mãe quase não sai da cama. Muita gente vestida com roupas brancas mexe nos pertences dela e nela própria, e ela não reage. Vou ficar bem juntinho e cuidar dela para que ela possa voltar a cuidar pessoalmente de mim.
E assim foi, até que um dia:
— Ufa!
Finalmente ela saiu da cama e posso sair também. Mas, algo continua esquisito: alguém ajuda minha mãe a sair da cama e, imediatamente ela se senta numa cadeira com rodas. Ela não consegue mais cuidar pessoalmente de mim, mas há pessoas que cuidam dela e de mim também. Às vezes, ela me oferece uma carona naquele veículo esquisito e eu vou!
Um dia, foi terrível: homens desconhecidos circulavam pela nossa casa desmontando tudo e pondo em caixas enormes. Fiquei assustado e pulei para o colo da minha dona. Decidi que onde ela fosse eu iria também. E sem medo!
Fomos até uma casa nova e vazia. Logo depois chegaram aqueles homens e foram montando os móveis. Aqueles móveis, eu conhecia... Então entendi estar envolvido no que os humanos chamam de “mudança”.
Estou numa casa nova. Aqui tem uma bacia higiênica enorme, chamada de jardim, mas a minha veio com a “mudança”, então vou continuar a usá-la.
Um dia vi chegar um filhotinho de cachorro. Fiquei assustado pensando que meu espaço poderia ser usurpado. Mas logo percebi um detalhe que me tranquilizou:
—Ufa! Ela tem um espaço só dela. Melhor assim: cada qual no seu lugar!
Passado algum tempo, chegou um gatinho! Fiquei revoltado e até quis fugir de casa, mas reconsiderei:
—A filhota de cachorro está grande e preciso cuidar desse gatinho, senão ela pode machucá-lo. Afinal, ele é gato como eu e posso dividir meu espaço com ele. Voltarei a ser apenas um dos gatos, mas vou ser “o gatão”.
Hoje a minha vida está bem diferente, pois já tenho dezoito anos (quase 90...): “O gato antipático” do apartamento 22 tornou-se “o gato bravo” da casa 9.
Para a minha mãe humana, sou “o amigão”.
—Lembram-se daquele gatinho?
Ficou maior do que eu e já não preciso mais cuidar dele. É “o amiguinho” que me cativou e tornou-se meu irmãozinho. Muitas vezes as brincadeiras dele me irritam e eu sinto que são necessárias correções imediatas e, à maneira dos gatos, eu as faço.
Adaptei-me, mais uma vez, à nova vida e estive tranqüilo, até quando vieram uns homens e fizeram um buraco enorme no quintal.
O buraco foi ficando azul por dentro e, passado algum tempo, os humanos encheram-no com água. Aqueciam a água e punham minha mãe humana lá dentro...
Enquanto o buraco ia sendo revestido com uns quadradinhos azuis, outros homens vieram e fizeram um teto e paredes em volta do buraco. Era tudo transparente e eu podia enxergar o sol e o céu através daquilo.
Foi uma barulheira enlouquecedora, mas eu não enlouqueci e, algum tempo depois, foi agradável dormir minha soneca vespertina ao lado da piscina.
Um dia... “bummm”! —Que susto!
—Eu estaria tendo um pesadelo? Infelizmente era a realidade. O buracão azul foi se transformando num buracão preto, enquanto suas paredes e seu teto transparentes se derretiam.
O calor ficou insuportável.
Corri para me esconder e ali, encolhidinho embaixo da cama eu não via nada, mas ouvia sons estranhos e sentia cheiros inquietantes de coisas queimadas.
À noite, tudo estava quase normal: eu e o “amiguinho” dormimos no quarto da minha mãe humana, enquanto a cachorra andava pelo quintal. Dias depois, o buracão voltou a ficar azul e cheio com água e tudo retornou à normalidade.
Depois do incidente, vi chegar outra filhotinha de cachorro. A chegada dela não me abalou, pois assim como eu cuidara do “gatinho”, o “cadelão da mamãe” iria cuidar daquela cachorrinha. Pude perceber que a pequena se parecia com um novelinho de lã.
Achei que não cabiam mais em mim os acontecimentos marcantes, mas a vida ainda me reservou mais: um dia o “amiguinho” desapareceu e eu passei dois dias desesperado, procurando-o dia e noite pela casa. Ele fora viver com outra família. Talvez tenha sido melhor pra ele, pois se queixava muito do que ele considerava pouca liberdade: é que apesar de sermos da mesma espécie, somos de raças diferentes e somos guiados por instintos de maior ou menor intensidade, dentro daqueles que caracterizam os felinos domésticos. Entendo que somos diferentes, mas sinto falta dele.
Voltei a ser o único gato da casa.
O “amiguinho” foi um alegre, meigo e bonito rio que passou na minha vida. Meu velho coraçãozinho de gato quase foi levado por ele, mas continua aqui comigo!
Sei que um dia destes vou dormir para sempre. Mas não importa: tenho a tranquilidade de saber que não existem descendentes meus sofrendo pelas ruas e, demais disto, sei que manterei minha dignidade até o último ronronado.
Agora já tenho vinte anos, não sinto mais frio, nem fome, nem dor. Sinto-me confortável como se estivesse dormindo sobre as nuvens.

—Miauuu! Eu sou uma nuvem!

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