sábado, 7 de junho de 2014

PEIXES - do livro OI, BICHO! de Jan

OBS - Resolvi postar o capítulo VII - c) em separado, por retratar um momento crucial da minha vida...

VII – c) Peixes
  
O Pequeno aquário fora substituído por outro bem maior do que o anterior e agora estava na sala. Nele cabia uma grande quantidade de peixes de diferentes raças, cores e tamanhos.
Um verdadeiro clã vivendo em 80 litros de água morna, iluminado por uma lâmpada acesa dia e noite. Clã do qual aprendi a cuidar: alimentava os peixes e controlava a temperatura da água.
Certo dia, observei-os nadando em direção à ração e percebi a presença de criaturinhas minúsculas com um par de olhos enormes: eram filhotes e os adultos os comiam. Procurei saber a razão daquele comportamento e, dado o resultado da minha pesquisa informal, tomamos a providência que consideramos necessária naquela ocasião.
Sem considerarmos o fato de que a própria Natureza é responsável por seu equilíbrio, adquirimos uma “maternidade” que ficava submersa, presa na beirada superior do aquário e consistia em nada mais do que uma caixinha de plástico transparente, com uma divisão horizontal em declive, e uma fresta na parte mais baixa, de modo que os filhotinhos, logo depois de nascerem, “escorregavam” para o “andar inferior”, onde ficavam a salvo dos peixes adultos, dentre os quais a própria mãe.
Assim, o clã dos peixes foi ficando numeroso e eu assumi a incumbência de procurar peixinhos excessivamente barrigudos, pescá-los com uma redinha apropriada, pôr na maternidade e esperar dois ou três dias... Se nascessem filhotes, teríamos encontrado uma fêmea prenha.
Logo, montamos o segundo aquário. Era menor, mas igualmente com água aquecida: era o que chamávamos de “creche”, para a qual iriam os peixes/crianças, até se tornarem adultos e irem morar no “aquário grande”.
Aprendi a coordenar aquela movimentação familiar e, descobri que a rotina de cuidarmos daqueles peixes promovia a união da minha própria família, pois nos juntávamos (mãe, pai e filhos) quando era dia de limpeza no aquário.
Era trabalho de horas, animado pela perspectiva de apreciarmos, juntos, a água cristalina iluminada e salpicada de peixes bonitos e coloridos, que nos trariam paz e harmonia.
Quando a minha separação conjugal se concretizou, me vi com três filhos e um clã de peixes para cuidar sozinha. Doei o aquário.
Na última noite que o aquário passou lá em casa, sentei-me e fiquei observando o movimento dos peixes. Dei-me conta, então, de que cada criaturazinha daquelas era uma vida, com suas próprias características e que todas estariam me observando como eu as observava.
Por um segundo, o olhar daquelas pequenas criaturas era como o olhar do Criador sobre a criatura.
Que impressão eu teria causado?????
                                                          
Aquela lembrança, combinada com outras lembranças e imagens, resultou no conto a seguir:


ALÉM DA TRANSPARÊNCIA

Em um grande aquário, Tutu nadava e se exibia. Ele via, através do vidro, os olhares fascinados dos humanos e escolheu um deles. Escolheu um menino e deu-lhe o nome de Billy.
Tutu rodopiava e, chegando bem perto do vidro, acenou com a nadadeira para Billy e todos aplaudiram, pois pensaram que aquele gesto fora treinado como parte da exibição.
Alheio ao pensamento da platéia, Tutu continuou nadando, sempre de olho no amigo escolhido para aquele dia. Algum tempo depois a platéia se foi e, com ela, o Billy.
Tutu continuou ali, mas sabia que não entraria mais nenhuma platéia naquele dia e ficou triste, pois já aprendera a gostar de platéias. Recebeu a ração diária e, logo depois, viu as luzes se apagarem. Tutu acomodou-se sob as pedras arrumadas num canto e dormiu. E sonhou.
Sonhou que não havia ração, mas ele tinha liberdade para procurar seu próprio alimento.
Sonhou que não havia pedras arrumadas, mas ele podia escolher um lugar para dormir, como outros peixes.
Sonhou que nadava no fundo do mar e Billy nadava com ele.
—Como o mar é grande e bonito, não é Billy?
—Billy, você tem escamas e nadadeiras... você se transformou num peixe!!!
E Tutu nadava lado a lado com Billy.
As luzes que se acendiam acordaram Tutu. Ele olhou para o lado e Billy não estava lá e ele viu uma nova platéia se aproximando.
Novamente Tutu voltou a nadar e se exibir enquanto seu olhar buscava o “Billy” daquele dia. Encontrou-o no meio da platéia e foi como se o grande vidro transparente que os separava, deixasse de existir.

Tutu rodopiava...

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