terça-feira, 10 de junho de 2014

A GALINHA DO VIZINHO - cap. IX do livro OI, BICHO!


IX – A GALINHA DO VIZINHO

Ao entardecer, eu costumava me debruçar na janela da pequena sala e chorar a falta daquele que não chegaria mais do trabalho...
O Theo sempre se punha ao meu lado naqueles momentos e olhava insistentemente para o grande jardim da pequena casa vizinha.
Certo dia, resolvi tirar os olhos do horizonte. Olhei para baixo e vi o que tanto atraia o gato: ali vivia uma galinha.
Por certo, foi inconscientemente que o Theo fez com que eu “caísse na real”. O fato é que o hábito de desesperar na janela desapareceu como que por milagre.

Aos 15 anos de idade, Fábio foi morar com o pai e o gato ficou comigo.

Já na maturidade, lembrei-me daquela galinha, e escrevi um conto:

COTINHA

Ela morava em um grande jardim.
Dentro da casa atrás do jardim, moravam seus donos. Olhando para a casa, a balzaquiana Cotinha cacarejou, enquanto ciscava por ali.
Seu miolinho de galinha quase fundiu, mas ela se lembrou do passado e até conseguiu traçar alguns planos para o futuro:
—Os humanos nunca mais terão coragem de me comer. Deixaram passar várias oportunidades, mas eu não vou deixar passar nenhuma e vou viver minha vidinha da melhor maneira possível.
—A propósito, parece que aquele gato na janela do apartamento vizinho está me paquerando... Quais serão as intenções dele?
Seu cérebropequeno e limitado cansou de cismar, e Cotinha voltou a ciscar. Depois de alguns minutos voltou a cismar e lembrou-se do tempo em que vivia num galinheiro e era uma jovem franguinha.
—Ah, como era bom! Lá havia frangos e até galos. Os humanos cuidavam do galinheiro e eu só me preocupava com a cozinheira, até que virei bicho de estimação...
   Cotinha concentrou-se em sua distração de ciscar, até que um barulho a desconcentrou. Olhou e viu sua dona saindo da cozinha, usando um grande avental branco e empunhando um facão. Temerosa, ela se encolheu num canto e cismou consigo mesma, com certa dose de orgulho:
—Tenho que tomar cuidado, pois ainda dou um bom caldo!
A “dona” se aproximou, enfiou a mão no bolso do avental e tirou um punhado de milho, que atirou ao chão para alimentar Cotinha. Depois, fazendo-lhe um agrado recomendou que não estragasse o jardim e voltou a entrar na cozinha.
Ainda encolhida no canto, Cotinha dirigiu o olhar para a janela do apartamento vizinho e, vendo-a fechada, duvidou da sua própria sanidade:
—Será que lá havia mesmo um gato me paquerando???


—Será que eu ainda daria um bom caldo???

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