segunda-feira, 23 de junho de 2014

CRIATURA CAÍDA - mais um capítulo do livro OI, BICHO!

Estamos chegando ao final da 1ª parte desse livro. Continuem com a leitura...
XIV – CRIATURA CAIDA

 Numa tarde, tudo estava calmo quando entrei na casa, vindo do quintal. Na entrada da varanda envidraçada, vi uma pequena ave ferida no chão, tão frágil e, ao mesmo tempo, tão corajosa...
A avezinha foi posta, com cuidado, sobre um muro, a salvo dos meus gatos.
A visão daquele pássaro ferido ali caído, tanto quanto seu destino, perseguiram-me até quando escrevi o conto a seguir:

A SUSTENTÁVEL FRAGILIDADE DA CRIATURA

      Exibindo sua brilhante plumagem, um beija flor chamado Tiquinho voava livre e feliz de flor em flor, alimentando-se de néctar. Um dia, passeando por um jardim, Tiquinho viu uma porta aberta e entrou. Entre as paredes da casa, sentiu-se preso. Quis sair.
Utilizando sua característica de parar em pleno voo, ele observou com atenção e sagacidade aquela espécie de caverna onde havia entrado e viu a luz do sol do outro lado. O sol era brilhante e parecia chamá-lo.
Acionando toda a força de suas pequenas, velozes e fortes asas, Tiquinho voou em direção à liberdade.
De repente:
Um forte estrondo interrompeu o voo de Tiquinho. A claridade entrava por uma grande janela de vidro, que estava fechada!
Caído no chão, com o grande bico imóvel e com as asas esticadas formando um ângulo de noventa graus com o pequenino corpo imóvel, dor e medo se misturavam motivando os pensamentos que vagueavam desordenadamente dentro da pequena e dolorida cabeça de Tiquinho:
—Aaii! Não consigo voar! Não consigo sequer mexer meu pequeno corpo! Eu, que sempre me vangloriei de pertencer à única espécie animal que pode voar sem precisar de equipamento especial que a carregue. Posso também voar para trás, para cima e para baixo e agora estou aqui estatelado no chão, à mercê de predadores.
Predadores? Tomara que não venha aqui, agora, um daqueles de corpo esbelto, de andar rápido, silencioso, elegante, unhas afiadas, sutil e cruel... muito sutil e muito cruel!
Então, tão exausto quanto dolorido, Tiquinho fechou os olhos e seu pensamento voou para quem ele nunca vira, de quem por vezes esquecia, mas cuja existência, poder e sapiência conhecia muito bem através da existência das flores tão belas e doces, colocadas na natureza à sua disposição e alcance.
—Ei! Você que me criou! Olhe para baixo! Sei que não deveria ter entrado nesta caverna, mas entrei. Entrei porque... porque sou uma simples e tola criatura! Mas Você sabe disto e eu sei que posso contar com Você: valha-me!
Passado um espaço de tempo que para Tiquinho pareceram horas intermináveis, uma mão forte sustentou com cuidado seu frágil corpinho ferido e o colocou num lugar onde ficasse a salvo dos predadores e, de quebra, onde ele pudesse sentir o sol e ouvir o canto de outros pássaros.
Tiquinho adormeceu tranquilo e sonhou que estava novamente voando e beijando as flores.


Enquanto eu escrevia, tudo foi ficando claro: eu não preciso temer pelo meu futuro, pois sempre haverá uma mão forte e cuidadosa para me pôr a salvo. Acredito que a ajuda oferecida por Deus através dos bichos possa estar na simplicidade de um pequeno passarinho caído em nosso caminho.

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