quinta-feira, 5 de junho de 2014

BICHINHOS CONTRARIADOS - do livro OI, BICHO! escrito por Jan - OBS: a letra c) do capítulo VII será publicada numa próxima postagem...


VII BICHINHOS CONTRARIADOS

Tempos depois, tendo realizado o sonho da casa própria, eu e minha família mudamo-nos para um bonito e confortável apartamento.
Como todas as crianças, as minhas queriam ter animais.
E tiveram: um pequeno aquário com peixinhos, uma tartaruguinha e um passarinho na gaiola.

VII – a) Passarinho 
Fábio, o meu filho dono do passarinho, era pouco mais do que um bebê, e eu cuidava da pequena ave: dava comida, renovava a água e mantinha a gaiola limpa.
Aquele contato diário foi me conscientizando de que algo estava errado e passei a sentir compaixão pelo bichinho trancafiado ali. Eu falava com ele e ele ‘respondia’ me olhando atentamente.
Neste tempo, mudamo-nos para um apartamento um pouco maior e muito mais confortável. Numa bela manhã de outono, Fábio saiu para brincar levando o passarinho na gaiola para “tomar sol lá atrás”, onde havia um pequeno bosque. Logo voltou, trazendo a gaiola vazia e chorando copiosamente.
Quando o menino deixou a gaiola sob uma árvore, entrou um inseto nela, e a criança, querendo tirar o bichinho dali, abriu a gaiola... Fábio externou o temor de que o passarinho viesse a sofrer com frio, fome e medo.
Então inventei:
—Quando um passarinho foge assim, é porque ele viu um bando de amigos e quis ir junto, para procurar a mamãe dele.
Aquela explicação tranquilizou o menino.
Meses depois, ele ganhou um canarinho para ocupar a gaiola vazia. Bem depois, foi adquirida uma fêmea. E assim, o casal de aves estabeleceu uma união estável.
Eu me desculpava comigo mesma, dizendo que aqueles passarinhos já haviam nascido confinados e que eu não inventara essa “moda” de gaiola. Só me restava, então, cuidar deles.
Um dia, lá estava eu no afã de limpar a gaiola, quando a senhora canária morreu. Foi assustador: ela estava empoleirada no pequeno balanço e, de repente, caiu. Alguma coisa a amedrontara repentinamente, e não fora a minha chegada, pois eu já estava ali havia algum tempo.
Pouco tempo depois, o passarinho viúvo, em sua belíssima gaiola, foi fazer companhia ao pai dos meninos.
Transcrevo, aqui e agora, uma das primeiras crônicas que escrevi.

AFINADOS


Passarinho foi feito para voar livremente, para se acasalar sem platéia e para fazer ninho onde quiser.
Mas, são tão bonitinhos que se tem vontade de comprá-los aos casais, alimentá-los, fazer-lhes um ninho, esperar o filhote nascer e, quem sabe, ganhar prêmios em alguma exposição. Para isto bastaria mantê-los em gaiolas. E não haveria problemas quanto a isto, porque várias espécies procriam em cativeiro. A única questão é que eles não poderiam voar livremente e nem cantar nas árvores.
Há solução... No entanto, seria preciso abrir mão de ganhar prêmios (dinheiro, troféu, medalha...) enfim, qualquer coisa que alimente a vaidade humana.

Questiono: existe prêmio maior do que olhar para cima e ver pássaros voando, no firmamento azul? Ou ser despertado pelo som do seu canto afinado, vindo de uma árvore verde? Até quando o céu será azul? Até quando as árvores serão verdes? Até quando haverá pássaros? Até quando haverá oxigênio? Até quando haverá vida? Para onde “migrarão” nossos netos? Para onde estamos “voando”? O que deixaremos para nossos filhos? 


VII – b) Tartaruguinha

Falemos da tartaruguinha.
Meu casamento já estava “manco”, quando o Duda ganhou uma tartaruguinha que nunca recebeu um nome, pois nem eu e n
em o menino sabíamos qual o tipo (ou raça?) do animalzinho, nem se era fêmea ou se era macho.
O fato importante é que me afeiçoei ao bichinho. Toda aquela aventura doméstica foi uma experiência enriquecedora para mim: limpar sua moradia (uma espécie de gamela, contendo um laguinho feito com um recipiente de barro); alimentá-lo; e, vê-lo crescer.
O bichinho crescia... crescia... não parava de crescer e fatalmente não mais caberia na sua casinha improvisada. Então, a avó paterna dos meninos levou o bichinho para sua própria casa, onde havia outra tartaruga, já adulta.
Eu? Aprendi que tartarugas precisam mais do que uma casa improvisada numa gamela.
Há pouco tempo, assistindo TV, vi um comercial que atraiu minha atenção por sua beleza e sua criatividade e que, juntamente com as lembranças daquela tartaruguinha me trouxe uma repentina inspiração, e fez surgir mais um conto.

O BALLET DA VIDA


Numa noite enluarada, ela nasce.
Mas não há tempo para apreciar a lua, pois é preciso sobreviver. Sua família constitui-se de quase uma centena de tartarugas recém nascidas que, assim como ela, apoiam-se umas nas outras para escalar uma parede altíssima e chegar ao espaço que fica ao lado do mar, acima da terra e abaixo do céu, e dali correrem instintivamente tentando alcançar a água, que é seu verdadeiro lar.
Suas patas, que num futuro bem próximo funcionarão como nadadeiras, deixam marcas desajeitadas na areia.
Ela segue em frente como que obedecendo a uma coreografia instintiva, pois a música das ondas a atrai e ela sabe que a água é um lugar onde se atinge a plenitude da vida, apesar dos predadores.
Finalmente ela sente a água fresca que lava a areia de seu corpinho minúsculo e o impulsiona para o imenso berço da vida.
Vamos “registrar” nossa tartaruguinha e passemos a nos referir a ela como Tatinha.
Sabiamente e com uma boa dose de sorte, Tatinha escapou dos perigos naturais e, já crescida, nadava majestosa e tranquila quando, de repente, sentiu-se presa. Quanto mais se debatia, mais se enredava.
Assustada, ela exclamou:
—Por Netuno!
E comentou com alguns peixes que passavam ali perto:
—Vejam só o que me aconteceu. Eu sempre consegui escapar dos predadores naturais. Mas esta rede não é natural e, por isso, eu creio que o bicho-homem, o predador dos predadores esteve aqui, pois o homem é o único ser do reino animal com capacidade para deixar uma tartaruga completamente indefesa, prendendo-a em suas redes de pesca.
Mas, felizmente o homem pode optar pelo bem e algum ser humano dotado de bons sentimentos esteve naquele local, naquela hora e desenredou Tatinha. Ela se afastou dali nadando livremente e prometendo a si mesma que jamais se deixaria enredar novamente.
Um dia, Tatinha saiu do mar, sem perceber que seu grande senso de direção a levara de volta ao lugar onde nascera.
Olhou em volta e, lentamente, mas com segurança e precisão, cavou um grande buraco onde desovou uma centena de ovinhos que, algum tempo depois eclodiriam, tendo sido chocados pelo calor da grande quantidade de areia depositada sobre eles e compactada pelo corpo, agora gigantesco, de mamãe Tatinha.

Deixando seus futuros filhotinhos aos cuidados da Mãe Natureza, Tatinha voltou ao mar, onde se sentia mais confiante e menos vulnerável, antes que fosse encontrada por um dos seus piores predadores e acabasse numa panela...

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