quarta-feira, 14 de maio de 2014

CAVALOS - mais um capítulo do livro OI, BICHO! - este com dois textos ilustrativos - de Jan

III - CAVALOS

Na mesma época, durante o dia, eu via cavalos e aprendi que são fortes e, ao mesmo tempo, delicados.

O PASSEIO

Sou um cavalo. Um cavalo sem nome, mas com identidade: sou aquele cavalo que numa bela manhã foi encilhado com cuidado especial, ao lado de outros dois cavalos.
Senti-me lisonjeado quando aquele cavaleiro adulto se aproximou de mim, trazendo duas crianças pequenas pelas mãos e as ajudou a montar em mim: primeiro a menina, que segurou minhas rédeas com firmeza; depois o menino que, na garupa, logo se agarrou à cintura da jovem e inexperiente amazona.
Fiquei ali parado até todos os meus companheiros começarem a andar.
      Os humanos iriam passear enquanto que, para nós cavalos, seria trabalho.
—Normal! Essa é a nossa função natural e a fazemos com amor e alegria...
Não fomos longe, mas andamos bastante, dando voltas por ali.
Passamos por um campo pequeno e meio elevado e, para sairmos dele e retornarmos à casa da qual havíamos saído, havia um pequeno barranco, de pouco mais de meio metro de altura. Eu “fazia de conta” que a menina me guiava, mas sabia o que fazer: desci como sempre, mas foi demais para a pequena dupla de cavaleiros.
Quando desci as patas da frente, meu dorso inclinou-se. O menino não viu a descida, assustou-se, agarrou com força a cintura da menina e ambos caíram. Foi uma queda sem maiores consequências, além do susto.
Eu via as crianças caídas no chão e tive que dar “passos de balé” para não pisoteá-las.
Ao chegarmos, fui parabenizado pelo cuidado que tive com as crianças e ganhei um torrão de açúcar.
    —Huuumm! Que delícia! Como é doce o sabor do dever cumprido!


Meu contato com cavalos foi intenso e marcante, mas eu nunca tive um deles e já me conformei em não ter.
... Um belo dia, acordei disposta a fazer equoterapia. A oportunidade se me apresentou assim – sem motivo aparente.
Rendeu um conto.

CORCEL ALADO

Talita acordou naquela manhã e, antes mesmo de abrir os olhos, sorriu imaginando-se a cavalgar  rumo ao horizonte infinito.
Aquela imagem onírica tomou conta dos sentidos daquela mulher, fazendo-a sentir-se leve, livre e solta: com os cabelos brincando em seu rosto, ela via o cavalo abrir asas emplumadas e alçar vôo, levando-a em direção às estrelas.
Percebendo uma presença humana a seu lado, Talita abriu os olhos e olhou em volta... ao sentar-se na cama, retomou consciência da sua limitação corporal.
Naquele momento, o horizonte pareceu ser limitado pelas paredes do seu quarto. Mas Talita viu uma janela por onde entrava a luz do sol...
Talita firmou os pés no chão, apoiou-se nos braços da cuidadora e sentou-se na cadeira de rodas... deixou-se levar ao banheiro... de volta ao quarto, esperou que o desjejum lhe fosse trazido na bandeja... deixou-se vestir... deixou-se conduzir até seu carro popular/particular e a cuidadora sentou-se e dirigiu o carro até um lugar distante. O pequeno carro adentrou o solene portão do lugar aonde Talita terá uma sessão de Equoterapia... equo: o sonho, terapia: a realidade.
Bill, um cavalo de meia idade, a espera e, num espaço de meia hora, será somente dela.
Pacientemente, Bill acolhe o peso daquele corpo cansado em seu dorso.
Talita e Bill são dois velhos, cansados da guerra mas dispostos a continuar guerreando.
        Lentamente, obedecendo ao comando de profissionais, conduzindo e deixando-se conduzir, o cavalo conduz a paciente sob árvores altas e frondosas.
Talita então constata:
“-É mais fácil sonhar quando toda a Criação se funde e conspira a favor de nossos sonhos.”
E, firme sobre as quatro patas de Bill, ao lado de profissionais confiáveis e sob a proteção do Céu, Talita sonha de olhos e cabeça abertos... olhos protegidos por óculos e cabeça coroada por cabelos brancos. Sente-se livre como se cavalgasse um corcel alado e até percebe que seu corpo recomeça a acompanhar os movimentos cadenciados e leves da Mãe Natureza.
E segue, cavalgando a vida.

E foi mais ou menos assim que, durante pouco mais de dois anos, pelo horário de cada sessão de equoterapia, Bill era “o meu cavalo” ...
Tive benefícios físicos praticando equoterapia, porém o maior benefício foi que , depois de ser sexagenária, aprendi “faz de conta”... Eu “cresci”, em cima daquele cavalo. Senti-me como na música: "Agora eu era herói e meu cavalo só falava inglês...".

Cavalos são bichos especialmente sensíveis e sentem prazer em servir aos humanos.Além disto são elegantes e são muito bonitos.


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