sexta-feira, 1 de novembro de 2013

ARTE TUMULAR - texto de Marilda Cofortim - compartilhado da cronologia da autora no facebook


Passo diária e religiosamente por dentro de Cemitério Municipal para ir ao trabalho. Antes de chegar ao enorme portão de entrada, cumprimento a velha senhora que trabalha na primeira floricultura. Às vezes compro uma rosa vermelha e deixo-a sobre um túmulo qualquer.  Confesso: Não há nesse ato nenhuma crença milagrosa em relação aos falecidos. Minha intenção, menos nobre e muito egoísta,é receber um sorriso daquela simpática florista que ganha a vida com a morte.

Há velórios todos os dias. Às vezes,dois ou três. Ao me aproximar das capelas, as pessoas com olhos vermelhos e tristes, tentam descobrir se sou parenta ou amiga da família. Leio o nome do falecido e para a decepção delas, faço uma leve reverência e sigo meu caminho. Percebo que minha passagem diária pelo cemitério desagrada e até mesmo choca os familiares. A maioria das pessoas que trabalha naquela região, evita cruzar o cemitério.  Prefere andar duas ou três quadras a mais, contornando o Campo Santo. Respeito ou medo? Como se pudéssemos desviar da morte...

Sempre me impressiono com o cão. Ele fica deitado na entrada do portão principal, esperado sabe lá quem. Já foi adotado pelos funcionários do cemitério. Só sabem dizer, que um dia ele entrou numa das capelas onde havia um velório, sentou-se ao lado do caixão, acompanhou o enterro e nunca mais foi embora. Vive lá, entre os mortos, confirmando as muitas histórias de cães que moram nos cemitérios, ao lado dos túmulos de seus donos.

Adentro o portão e sigo recitando mentalmente um trecho do poema Cruz, de Fagundes Varela, cravado em mármore na entrada do cemitério:

                       Estrelas
                       Singelas
                       Luzeiros
                      Fagueiros
Esplêndidos orbes, que o mundo aclarais!
Desertos e mares, - florestas vivazes!
Montanhas audazes que o céu topetais!
                       Abismos
                     Profundos
                      Cavernas
                     E t e r nas
                      Extensos
                       Imensos
                       Espaços
                       A z u i s


Nunca falo a última estrofe. Para mim,o poema termina em “azuis”, ao completar o desenho  da cruz.

Nas lápides, fotografias envelhecidas de mulheres jovens e fotografias novas de mulheres envelhecidas. Rosas de plástico desbotam nos intactos vasinhos de porcelana branca. Gosto do cheiro das flores e velas.

O vento batendo nos ornamentos produz sons estranhos. Será mesmo o vento? O cemitério não é tão silencioso como pensam os que não o conhecem. Desvio a atenção para as caturritas que conversam animadamente sobre os ipês enquanto os pardais e sabiás comem a farofa das macumbas deixadas nas encruzilhadas. Observo os objetos deixados nos pratos e cumbucas de barro. Imagino a intenção do ritual: Velas, cachaça, charutos,rosas, fotos, cabelos, trouxinhas de tecido, doces, pimentas, fitas pretas e vermelhas...  Vez ou outra, nos portões principais se vê algo mais amedrontador como uma galinha preta sem cabeça, papéis amassados respingados de sangue, bonecos vodus, caveira de gesso, sapo com a boca costurada, cabelos, ossos. Já encontrei uma pomba branca atingida por uma flecha no peito. Respeito todos os rituais de oferendas, mas, sacrificar animais... gosto não.

Lembro-me da festa do dia dos mortos no México. Uma festa muito colorida, com muitas flores, comida e bebida sobre os túmulos e altares espalhados pelas praças e igrejas das cidades. Caveiras por toda a parte, até nas árvores e nos pratos dos restaurantes. Pessoas vestidas de caveira seduzindo os vivos pelas ruas. Crianças declamando calaveritas no recreio dos colégios. Mariachis cantando as músicas preferidas dos falecidos. Uma festa linda.

Alheios à morte que os cerca, cumprimento os coveiros e jardineiros com seus grandes chapéus de palha, enxadas, pás e vassouras, que conversam banalidades enquanto recolhem em seus carrinhos de mão as folhas das árvores, as bitucas de cigarro e as coroas de flores dos enterros da semana passada. Varrem, lavam e lustram alguns túmulos e placas. Podam e trocam as flores. Ingenuamente, eu pensava que eram os membros das famílias que mantinham os túmulos mais luxuosos sempre limpos, floridos e bem cuidados... nunca me ocorreu que os ricos pagavam jardineiros para manter a aparência da última morada de seus entes-queridos. Morrendo e aprendendo...

Sigo por uma das ruas principais, do lado nobre do Cemitério Municipal, cercada de jazigos majestosos que eternizam o status dos falecidos.

Mesmo desprezando a desigualdade social imposta aos mortos, não consigo deixar de admirar as obras esculpidas em mármore, granito, bronze e cimento dos túmulos e mausoléus.

Encantam-me as réplicas de capelas góticas e esculturas como Pietá, O Beijo, Afrodite e os inúmeros anjos com suas asas brancas, tocando harpa, trombeta, ou com as mãos no queixo e seus sorrisos condescendentes. Os anjinhos barrocos de cabelos encaracolados e a ponta do nariz quebradinha são meus preferidos. Lembram meu falecidinho irmão Claudio.

As esculturas que mais me impressionam são aquelas que expressam desespero, angústia, rendição. São figuras inconformadas,debruçadas sobre os túmulos, mãos cobrindo o rosto, Cristos feridos na cruz, mães desoladas. É difícil desviar o olhar, tamanha é a admiração que tenho por essas esculturas. Já perdi a hora e cheguei muito atrasada ao trabalho por causa delas.

Mais adiante, um enorme anjo de cimento caído sobre o túmulo, com uma das asas quebradas sempre rouba um tempo do meu pensamento. Uns dizem que foi vandalismo. Outros, que um grande vendaval derrubou-o.Só sei que há muitos anos a família desse falecido não aparece por aqui. O anjo está todo machucado, coberto por ervas daninhas e limo. Tenho vontade de levá-lo pra casa..  

As esculturas que mais me agradam, são as sensuais. A eterna dança sedutora da vida e a morte.   Estátuas de mulheres cobertas apenas por um manto transparente, deixando à mostra um seio, partes das pernas delineadas,curvas sensuais, sorriso convidativo, lábios se oferecendo ao último beijo. A mulher semi nua simbolizando a atração do homem pelo desconhecido. A vida rendendo-se ao mistério da morte. São realmente inspiradoras essas esculturas tumulares.

Quadra 37, dobro à esquerda e saio pelo portão dos fundos do cemitério.  Chego ao trabalho e vendo a preço fixo, mais um dia da minha vida. Até amanhã, Dona Morte.


Marilda Confortin

Um comentário:

  1. Jan, que belo texto da Marilda!
    Respeito ou medo? Tanto que um cemitério nos desperta, até mesmo comprar uma flor para ajudar o ganha pão da florista. E o poema no desenho da cruz, também especial!
    Beijo

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