sábado, 19 de outubro de 2013

A ALÇA DA MALA - texto da Jan



“Sou uma mala sem alça”... disse uma voz entre risonha e conformada. 
Eu, que já estava assustada  por estar chegando, pela primeira vez, a um encontro de deficientes físicos, fiquei surpresa e pensei:
- Ah não! Eu não sei como será minha vida como deficiente física, mas eu não quero ser uma mala sem alça!
Pus-me a imaginar uma mala: aquele objeto útil, que serve para acomodarmos nossos pertences quando viajamos, guarnecidas com alça e, algumas, até com rodinhas... queremos pôr dentro da mala coisas úteis – ou até mesmo inúteis – para empreendermos nossa viagem. Mas ninguém quer carregá-la e por isto existem os carregadores de malas.
Imaginei o viajante olhando desesperadamente para a esteira vazia do aeroporto e perguntando impaciente: “- cadê a minha mala?”.
Olhei para mim: embora continue um ser humano, eu me transformei numa mala... pesada... aceitei este fato inexorável, mas decidi que vou estar sempre atenta para não perder a minha alça.  Pensei comigo mesma que nenhuma limitação nossa deve sobrecarregar ninguém desnecessariamente e que cada um de nós deverá saber de qual tipo de ajuda necessita, seja ela qual for, para pedir apenas a ajuda necessária.
Ainda comigo mesma, questionei se tal atitude diante das nossas necessidades especiais, não poderia ser uma espécie de orgulho.
Em seguida, um pensamento me tranquilizou:
Ora! pedir apenas o necessário não me parece vaidade, nem falta de aceitação da própria dependência exteriorizada por necessidades especiais, mas sim respeito pelo próximo.
Ali na portaria daquele hotel/estância, enquanto eu e a minha cuidadora esperávamos que nos indicassem o apartamento que nos fora designado, eu percebi que devo alimentar, a cada dia, o respeito por mim mesma e pelo próximo, seja ele deficiente ou não, através da busca do conhecimento detalhado da minha própria deficiência, para poder estabelecer o limite real entre minhas possibilidades e impossibilidades... pude ver, então, que a minha responsabilidade social aumentou na mesma proporção que as minhas possibilidades físicas diminuiram e entendi que a alça da mala é a mão que eu posso estender para ajudar a ser ajudada.

A caminho do apartamento que me abrigaria por todo o fim-de-semana que começava naquela manhã ensolarada de sábado, pensei que eu aceito ser uma "mala", mas jamais aceitarei ser uma "mala sem alça".

2 comentários:

  1. Jan, você nem é mala com alça nem sem alça, você é um vagão que carrega tua experiência de vida que corre liberto nos trilhos da tua perseverança.

    Você é uma guerreira, moça - aliás: ADMIRÁVEL!

    beijo de saudade

    Lu C.

    ResponderExcluir
  2. Adorei o texto Jan, não enxergo você como mala não... Se puder me guiar pelo que leio, gosto de tudo o que você escreve e aprendo muito com seus ensinamentos! Acho que você está mais para um livro, cheio de boas histórias!
    Um super beijo!

    ResponderExcluir


Gostou ?????