sexta-feira, 27 de setembro de 2013

VIDINHA E O PEDINTE DO AMOR - texto em prosa de Jeff Cardoso-COMPARTILHADO COM AUTORIZAÇÃO EXPRESSA DO AUTOR.

VIDINHA E O PEDINTE DO AMOR

O andarilho parou diante à empresa, observou o letreiro ao alto, certificou-se de não haver nenhum segurança e adentrou pela recepção do setor onde ela era recepcionista e foi ter direto diante sua mesa: “Oi! Você tem aí um trocado? Qualquer moedinha serve. Só um trocado pra um pobre coitado. Estou com fome, com sede, o de sempre. Mas vejo que você é bonita. Acho que estou apaixonado por você..., Vidinha. Não é que você é mesmo lindinha..., Vidinha! Eu troco um trocado por um beijinho seu, linda. Vamos embora daqui, Vidinha. Vem comigo pelo mundão sem fim e sem fronteiras”.

Por mais repentina e inusitada que fosse a proposta do mendigo apaixonado, Vidinha, que não se chamava Vidinha de fato, é claro, por um momento sentiu-se enternecida e lisonjeada pelo modo cativante com que o andarilho do amor revelou sua paixão repentina e fulminante. Nos dias seguintes, todos os dias, nas vezes em que entrava e saía da empresa, lá estava sentado à porta, todo sujo e roto, o andarilho do amor. Com seus cabelos emaranhados formando longos carrapichos, os quais ele ajeitava de minuto em minuto, com seus andrajos puídos e encardidos, os quais ele não parava de alinhar ao ver a aproximação da moça na garupa do moto táxi, e com o saco onde carregava toda sua tralha de andanças e acompanhado pelo inseparável cão vira latas Melão, ele sorria mostrando os dentes amarelos por trás da densa barba que se confundia com o vasto bigode.

“Bom dia, Vidinha!” ele dizia, assim que a moça descia da moto e acertava com o mototaxista. Vidinha, que não era vidinha, como já disse, dava-lhe um trocado e negava-lhe um beijinho. O tempo passou e o frio do inverno não demoveu o andarilho apaixonado de seu plano romântico.

Porém, com o final do inverno, assim da entrada da primavera, em sua manhã de estreia, Vidinha, que não se chama Vidinha, convém não esquecer, procurou com o olhar em todas as partes o homem que lhe tributava um sentimento puro e original. Ele não estava mais ali. Vidinha entrou e seguiu com a vida, com seu trabalho. Nutriu a esperança de ver o homem que lhe mendigou o amor na saída para o almoço e no final do expediente. No dia seguinte, Vidinha ainda achou que pudesse ver o encardido pedinte do amor ali no lugar do costume, mas ele não apareceu lá, assim como não esteve na semana seguinte e nem nas outras. E o outono daquele ano, por mais contraditório que pareça, foi para ela mais frio que o inverno que passou.

Um comentário:

  1. Fico muito feliz e honrado por figurar aqui, Jan. Obrigado pelo carinho e consideração! Beijo!

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