quinta-feira, 18 de julho de 2013

DO LIVRO "O AUTISMO É OUTRA HISTÓRIA" - capítulo QUATRO

Dezembro de 1997.
Outro verão acabara de começar.
Ia findar-se também o outono e as outras estações. Quem sabe a quantas primaveras ainda sobreviveria sua esperança, ao menos de que o filho pudesse encontrar um lugar que o confortasse? Era um ir e vir de estações que, frias, escaldantes, floridas ou enterrando folhas secas... se consumiam na mesmice do verbo acreditar. Faziam muitos outonos desde o primeiro e a espera estava já agonizante.
O menino curtia ficar em casa, mas estava sempre em busca de algum lugar para ir. Quando faziam pequenas viagens, ao litoral ou à casa de familiares, no interior, parecia que aquele destino não o satisfazia e ele não aceitava permanecer por mais de dois dias no mesmo lugar, entediando-se. Era um lamentar perene. Como se permanentemente lhe faltasse algo, exceto pelos raros momentos em que se aquietava perto do pai, da mãe ou do irmão, a quem sempre demonstrou afeição especial – tendo em vista que a irmã, por ter se dedicado muitos anos ao esporte, ficava a maior parte do tempo dentro de ginásios se preparando, ou em viagens para competir, primeiro no Colégio Santa Maria e, após, na Confederação Brasileira de Ginástica. 
Estava contente pelas novas possibilidades que poderia ter com o filho a partir dali.
Ao final daquele ano (1997) completaria seu último ciclo profissional. Estava prestes a deixar de trabalhar, após a contagem de seu tempo de serviço: 25 anos, três meses e oito dias. Mesmo ano em que Thiago completou dezesseis anos de idade e tinha começado a fazer uso de medicamentos. Foi com pesar que admitiu, finalmente (após intensa insistência do médico e pressão da clínica), que ele tomasse remédios, mas quase lamentou, depois, ao vê-lo descendo os degraus da escada de casa, recurvado, os passos trôpegos, o olhar de sonâmbulo, num alheamento que perdurou enquanto o organismo se adaptou à nova droga – e não foi um período curto.
Após alguns meses, depois de várias intervenções para ajustar a dosagem à aceitação do organismo, houve uma estabilização. Apesar do uso dos remédios ele ainda teria, mais tarde, vez por outra, os mesmos comportamentos despertados na adolescência que com o passar do tempo foram ficando escassos, mas persistiriam, entretanto, ainda que ocasionais – quem sabe, para a vida toda.    


”Desde Kanner até os nossos dias, o Autismo vem sendo atualizado constantemente no que diz respeito a critérios de definição, avaliação e abordagens/enfoques. Porém, na última década, o autismo tem se beneficiado de novas teorias e evidencias, em busca de elementos concretos que iluminam e dão esperança a pais e profissionais dedicados à área. Contudo, quando nos deparamos com algum estudo ou trabalho a ser apresentado, é preciso definir alguns critérios que devem ser seguidos, critérios estes que residem nas definições hoje descritas no DSM e no ICD, da Associação Americana de Psiquiatria. De acordo com esses parâmetros  pode-se dizer que autismo é um transtorno geral ou abrangente do desenvolvimento, que tem o seu começo até os três anos de idade (ainda que existam casos raros de começos mais tardios: Wing 1996, Volkmar, 1997), sem cura até o presente momento. Pode-se também dizer que há um continuum (Grandin, 1995) ou um espectro autista (Wing, 1996) que varia da forma mais severa a mais branda ou leve, também descrita como autismo de bom desempenho. O critério de autismo de bom desempenho também pode ser considerado por alguns autores como Síndrome de Asperger (Attwood, 1998), porém a discussão ainda não está concluída em poder dizer se os dois conceitos pertencem à mesma entidade ou não. Independente do grau de autismo encontra-se presente em todos os casos a tríade de prejuízos:
• Prejuízo na interação
• Prejuízo na comunicação
• Prejuízo na imaginação
 Essas dificuldades atuam de maneira crucial no autismo e os prejuízos estão diretamente ligados ao grau de autismo que o indivíduo apresenta, quanto mais severo o grau de autismo, mais dificuldades a pessoa tem.” (Retirado do texto: Breve análise da cognição da pessoa com autismo).


Uma sentença cruel

Santa Felicidade. Rua Domingos Dalla Bona, n° 270, casa de Paulo Roberto Garcia – o Paulinho, 29 anos, formado em Administração de Empresas pela Universidade Tuiuti do Paraná – UTP. Atualmente ele freqüenta um cursinho e se prepara para prestar concurso público. No tempo que sobra, fabrica e vende (para os conhecidos), bolachas especiais, seguindo uma receita que aprendeu com a avó e que guarda, em sigilo, a sete chaves. Começou a fazer isso como um hobby, depois achou que poderia ser lucrativo:
- Quero ter meu próprio dinheiro! – diz, com a testa franzida de preocupação.
Quando ele tinha dois anos recebeu o diagnóstico de autismo do médico Isac Bruck, e uma terrível sentença: “Não falará, não andará, não se desenvolverá, regredirá...”. O médico fez, na época, os mais sombrios prognósticos para o futuro do menino.
Quando Paulo veio abrir o portão andando de muletas (em virtude de uma fratura no pé), não tinha nenhuma característica que lembrasse o autismo desenvolvido na infância. Sua história tinha sido contada pela mãe anteriormente. Ela disse que achava o filho muito calado e reclamou com o pediatra sobre a demora da fala, e também, de seu comportamento meio estranho e arredio, mas o médico sempre a acalmava, dizendo que esperasse mais um pouco, porque menino demorava mesmo para falar. Como tinha duas filhas, achou que poderia ser isso mesmo e esperou. Até que, aos dois anos e meio, numa consulta com o neurologista, ele indicou o diagnóstico de autismo.
Paulo é o chamado “autista de alto rendimento”, mas foge das características desse caso, principalmente por ter falado após os seis anos. Marli disse:
- Eu pensava que nunca ia ouvir a voz dele e isso era muito triste.
- Como foi no começo?
- Nas primeiras vezes em que ele ia à escola, quando era pequeno, era horrível, as outras crianças o chamavam de mudinho, porque ele ficava pelos cantos e não falava nada.
- E como apareceu a fala?
- Fizemos uma grande corrente de oração e pensamento positivo, todos mentalizavam ele falando. Para ele dormir colocávamos uma fita de reforço mental com músicas suaves e palavras encorajadoras. Durante muito tempo fizemos isso. Também jamais o deixávamos sozinho, aplaudíamos todas as suas atitudes positivas, eu não permitia que ele ficasse distante com suas manias, arrancamos ele de seu autismo.
Marli contou que teve ajuda da família, principalmente da filha mais velha, hoje médica, que, em casa, realizava atividades de escrita, de lazer e aprendizado de forma geral com o menino. Ele começou a falar com sete anos, mas freqüentou escola especial até os nove, quando passou para uma classe regular. Fez o 1° e o 2° Grau no Colégio Decisivo e, apesar de ter atrasado alguns anos, conseguiu se formar Administrador de Empresas, em 2005, com 27 anos.
Hoje Paulo faz planos para o futuro como qualquer jovem de sua idade e quanto ao autismo tem apenas uma suave variação de ritmo ao falar. Já suas preferências sociais se resumem aos familiares e, como tem obstinação quanto ao futuro, diz não ter tido tempo ainda para relacionamentos.
- Um moço tão bonito como você, deve estar rodeado de meninas...
- Estou sozinho – responde, como sempre, em seu português pontuado e bem pronunciado – mas não por muito tempo!



Novo tempo, despedidas, olhares, amigos, sorrisos, compreensão. Novos caminhos. Chegou em frente da clínica onde o filho passara os últimos anos, numa tarde ao final da primavera do ano letivo de 1997, após ter se despedido dos colegas de trabalho – no Tribunal. Ia ter a última conversa com a diretora, mas não sabia. Aquela, em princípio, era uma reunião rotineira como as que todos os anos aconteciam: apresentação de resultados, conversa com profissionais de cada área, rendimentos pessoais, perspectivas futuras, etc. Enquanto subia os degraus da velha escada estreita, para aquele “fechamento de contas” anual, refletia (como num balanço) sobre tudo o que fizera até então. Relembrou das dificuldades do começo, dos momentos bons da infância do filho, das viagens com os três em férias, das risadas nas festinhas de aniversário, dos laços que criaram. E, por último, sua estada ali. Saldo positivo, apesar de tudo. Recomeçar.
Enquanto aguardava na ante-sala ficou sabendo de um novo espaço que estava prestes a ser inaugurado em Curitiba - uma escola direcionada somente para crianças autistas. A notícia foi espalhada, a bocas pequenas, no “diz-que-me-disse” dos corredores, em conversas com algumas mães, mas, em princípio não acreditou, tinha a cabeça nula de idéias naquela tarde, como se a partir dali fosse zerar o cronômetro para a próxima caminhada. Pensou, mais tarde, reavaliando a situação, nas outras vezes em que teve o enfrentamento com o próximo passo de um futuro desconhecido que se avizinhava, tinha a sensação de que sempre em situações como essa, de repente aparecia diante de si uma saída. Era como se, apenas ao findar da cena anterior, tomasse conhecimento da continuidade da história – como no velho roteiro pré-escrito. Seriam as tais leis superiores?  Seria Deus? Brincou em suas leituras interiores.
Quase intimada por uma das mães, após a reunião na clínica, aceitou ir até o local conhecer a nova escola. No trajeto, enquanto as amigas tagarelavam, ficou relembrando das vezes em que tinha passado pela mesma situação (e não foram poucas), não queria influenciar negativamente as outras, por isso acompanhava as brincadeiras e o otimismo das demais. Mas estava mais acabrunhada, talvez pelo seu estado de ânimo naquele momento, em vista da despedida do trabalho e das pessoas queridas que tinha deixado para trás e, sabia, iriam fatalmente ficar na lembrança, mais cedo ou mais tarde – como costuma acontecer depois de cada separação. É inevitável. Nada seria como antes. Foi uma etapa importante da vida encerrada e tinha que se dar um tempo para aceitar a nova situação e o direito de processar o sofrimento. Por outro lado, até já imaginava com o que se deparariam dali a pouco: o mesmo quadro sombrio das escolas que tinha conhecido.
Quando chegaram, entretanto, não foi o que ocorreu.
Estacionaram o carro no endereço indicado à Rua Margarida Dalarmi, n° 151, Santa Felicidade e pararam em frente a uma grande casa. Simples, mas um espaço imenso, comparado ao que o filho freqüentava até então. Não havia quase ninguém lá dentro (no máximo quatro pessoas), por isso a primeira impressão não foi das melhores, o lugar parecia solitário, as palavras faziam eco por entre os vãos que separavam os aposentos da grande sala em desnível, ocupada por pesados móveis em madeira maciça. Na parte mais baixa da sala havia uma grande lareira que ficava em frente a duas enormes janelas, mas diante da tarde escaldante (e a sensação abafada que ia dentro de si), a proximidade com aquele ambiente suscitou-lhe uma incoerência que não conseguia explicar-se e, até, falta de ar.
Nos fundos, foram construídas as salas de aula, por assim dizer, mas eram espaços delimitados, arquitetados com a idéia de um atendimento quase individualizado, como explicou depois a proprietária. Do lado de fora, entre a casa e as salas, num tipo de varanda, um rapaz estava sentado numa cadeira muito baixa que quase roçava o chão e empurrava-o (numa ilusão de ótica) para somar força com a gravidade que vinha do centro, como se a terra lhe fosse convidativa. Balançando seu autismo ele interagia com aquele cair de tarde bucólico, como num filme antigo.      
Enquanto Luciene de Oliveira, a proprietária, mostrava todos os cômodos ia relatando sua intenção de construir ali um grande espaço para crianças e jovens autistas como seu irmão, que se balançava na cadeira. A mulher tinha a voz pausada e a aparência tranqüila, mas pôde ver além de seus olhos uma secreta preocupação (e até melancolia), não sabia o porquê, parecia estar desconfortável (assustada) diante do novo empreendimento que abraçara, era como se sua figura não estivesse na mesma escala de todo aquele espaço que se desenhava em volta dela. Suas palavras saiam em sopros, quase suplicantes, embora aparentemente estivesse serena, mas era como se realmente precisasse da ajuda das mães para pôr o projeto em prática. A casa grande contrastava com os gestos tímidos da mulher. Não em seu propósito, todavia. Fisioterapeuta de formação, contou que o principal motivo de ter aberto aquele espaço era a falta de um lugar adequado para deixar o irmão, pois tinha perdido o pai havia pouco tempo e a mãe estava já impossibilitada de cuidar do filho, sozinha.      
Após o relato, tinha dúvida ainda se aquele seria um lugar ideal para o filho, mas o espaço físico de que ele necessitava, encontrou ali. Além do mais, sustentou uma simpatia espontânea pela mulher e seu projeto de vida. Era visível a boa intenção dela.  
Foi para casa fazendo planos. Conversava com Thiago que estava sentado ao seu lado, no carro, após o retorno da clínica, mas enquanto falava ele não tomava conhecimento, como se não fosse com ele, mesmo assim relatou, num monólogo, sobre a escola que conheceu. Ele não interagia e era muito calado, não emitia som algum, vivia dentro de si, embora muitas vezes olhasse para os olhos da mãe quase numa indagação, como fez quando ela retornou da panificadora, onde tinham parado. Quando ela entrou no carro era como se ele quisesse dizer alguma coisa, mas não se esforçou, mesmo diante da insistência dela – como sempre, permaneceu intacto.
Era o último dia letivo dele na clínica, que embora não fosse uma escola, tinha os mesmos rigores, de descansos e férias regulares. Era o último dia de trabalho dela. Percorreu um sentido diferente naquele retorno para casa. De propósito. Parou próximo a uma praça e se demoraram olhando o braço d’água fino e sujo do Rio Bacacheri que atravessa o parque. Permaneceram no carro porque ele resistiu em ir lá fora dar uma volta (como ela planejou) e preferiu ficar esperando a seqüência do ato contínuo e rotineiro de retornar à casa, como fazia todos os dias e, dali a pouco, já começou a impacientar-se de estar ali.
Voltaram então, para casa, naquele final de tarde do verão quente de 1997. Sentia um grande alívio. Mas impressões conflituosas ainda a acompanhavam, apesar de sentir-se mais leve diante da perspectiva de ficar em casa por uns tempos e assim ter tranqüilidade para cuidar das coisas dali para frente. Uma situação comum unia os dois naquele momento: era uma sensação indescritível de fase terminada. Os próximos três meses seriam decisivos para suas vidas.


“Ela demonstrava total falta de controle de si mesma”

Num escritório de advocacia, no centro de Curitiba, a advogada Neusa, 48 anos, atende casos complicados desde que chegou à cidade, há mais de 10 anos. Mas seu complicado caso pessoal ainda está pendente de solução. Ela é mãe de Denise, 24 anos, autista. Severamente comprometida. Os nomes são fictícios.
A mãe relata que, desde que a filha era bem pequena, sempre achou que existia alguma coisa estranha com ela. Era uma menina muito magrinha e teve alguns problemas de saúde ainda quando era bebê. Até os 11 meses desenvolveu-se, mais ou menos normalmente, mas a comunicação (mesmo se dando apenas em relação aos seus trejeitos faciais) indicava uma não-presença que preocupava a mãe.
Quando a criança tinha mais ou menos um ano, nas consultas rotineiras ao pediatra, passou a questionar sobre a ausência da fala e o desenvolvimento diferente, mas a certa altura o médico chamou-lhe atenção:
- Não mãe, isso é paranóia sua, cada bebê tem seu tempo.
A menina andou com mais ou menos um ano e meio e quando se aproximava dois anos já dava para perceber que ela estava mais isolada, ficava muito quietinha. Não tomava conhecimento do que se passava à sua volta. Com dois anos teve a primeira convulsão e na mesma ocasião, numa investigação mais apurada, foi diagnosticado o autismo, termo que nunca tinham ouvido falar.
Como a família morava em Apucarana, uma cidade pequena, a mãe foi procurar os médicos de Londrina, por ser uma cidade maior e com mais recursos. Lá eles confirmaram as características de autismo da menina, mas mesmo assim, não fecharam um diagnóstico conclusivo. A mesma cantilena dos exames anteriores (RX, eletro encefalograma, fundo de olho...) e outros novos (eletrofisiologia, potencial evocado), foram solicitados. Houve apenas uma pequena alteração em um dos exames (eletro), mas que foi considerada não significativa. Entretanto as convulsões continuaram. A criança passou a ficar mais agitada, evoluindo para características muito importantes de autismo: se fechou ainda mais, ficou agressiva e seus gestos estereotipados aumentaram.
A partir de então, foi submetida a uma série de atendimentos multidisciplinares (psicologia, fonoaudiologia, fisioterapia, etc.) em uma clínica em Londrina. Nessa época, entre os quatro e cinco anos, a menina apresentou um progresso muito grande, se desenvolveu em algumas áreas e, em vista do comprometimento que apresentava antes, apesar de não sair completamente do quadro, seu estado geral ficou bem melhor.
Entretanto, aos seis anos, seu desenvolvimento sofreu um processo de paralisação. Uma letargia se instalou e a menina involuiu a ponto de já não apresentar reação, por mais sutil que fosse. Então a família resolveu se mudar para Curitiba em busca de um atendimento mais especializado, mas surpreendentemente quando chegaram à Capital não encontraram nenhum local especializado em autismo.
- Ficamos vagando pelas escolas especiais – relembra a mãe, que foi advertida rispidamente pelo médico Isaac Bruck em vista de a menina ainda estar sem diagnóstico. Era como se o médico estranhasse ela, apesar de bem informada, estar àquela altura ainda sem ter conhecimento do que tinha a filha.  
- Ele inclusive repreendeu-me por estar naquele estágio de desconhecimento - admite rindo, como se de alguma forma se resignasse e até admirasse a atitude dele.
 Em vista da falta de melhora da filha, outros médicos foram consultados (entre os quais, a neuropediatra Maria Júlia Camina Bugallo) e mais tarde procuraram também a área da psiquiatria, mas apesar dos procedimentos indicados, a menina não melhorou. Ao contrário, à medida que o tempo passava a garota começou a ficar mais agressiva e a piorar de um modo geral – principalmente no comportamento:
- As crises convulsivas se agravaram e ela passou a demonstrar total falta de controle de si mesma – diz a mãe.
A adolescência foi uma fase crucial para ela. A menina piorou muito. A certa altura (coincidindo com o uso do remédio Haldol) teve crises de extrema agressividade, batia a cabeça na parede e nos móveis, arrancava os cabelos, ninguém podia acalmá-la. Em 2004, depois de sucessivas crises, foi internada para que fosse controlada mecanicamente (com a ajuda de profissionais e artifícios que a imobilizavam) e também quimicamente (com drogas).
- Tivemos que interná-la muitas vezes – confessa, com tristeza, a mãe – porque ela, inclusive, estava com a vida em risco, tamanha era a auto-agressão. Com muita dificuldade, finalmente no Hospital Bom Retiro, as crises foram controladas. 
Hoje Denise mantém-se razoavelmente sob controle, ainda tem convulsões e faz uso de muitos remédios. Com o método Teacch conseguiu organizar melhor o seu dia e tem uma vida mais tranqüila – ainda que permaneça até hoje altamente dependente dos outros. A mãe acabou adquirindo um imóvel, próximo à escola em que a garota freqüenta, para que assim, a família possa ficar mais perto da filha. Diz que tem muitas preocupações e se sente impotente quanto ao futuro, esperar por dias melhores é tudo que pode fazer por ela neste momento:
- Quero que ela consiga autonomia, pelo menos para sobreviver quando eu não estiver mais aqui – confessa, com amargura.


          De maneira mais ou menos comum, os transtornos autistas se manifestam nos primeiros anos de vida e, freqüentemente, estão associados com algum grau de retardo mental. Os Transtornos Invasivos do Desenvolvimento (nos quais se encontra o autismo) são observados, por vezes, juntamente com um grupo de várias outras condições médicas gerais, como por exemplo, com outras anormalidades cromossômicas, com infecções congênitas e com anormalidades estruturais do sistema nervoso central – e essas facetas (que aumentam a severidades dos casos) são mais comuns em meninas. Segundo Sérgio Antoniuk, não há explicação para o agravamento  dos sintomas nas meninas e, sugere, de acordo com relatos de estudos da neuropsiquiatria, uma possível exposição exagerada ao hormônio consistente na testosterona (em alguma fase da vida, mesmo intra-uterina) – uma das explicações levantadas nesses estudos. 
Identificar todas as nuanças que envolvem a síndrome, e defini-las depende de critérios que ainda não foram fechados, mas é certo que o autismo é muito mais comum em crianças do sexo masculino. As taxas são de quatro a cinco vezes superiores nos meninos, entretanto, as meninas estão mais propensas a apresentar um retardo mental mais severo. Tanto é que um dos desdobramentos da síndrome autística (que é mais incapacitante sendo, inclusive, degenerativa) é a Síndrome de Rett, que ataca preferencialmente meninas.

No início do ano de 1998 quando Thiago ia completar 17 anos, finalmente foi matriculado na escola Centro Conviver, a casa grande e simples que conhecera meses antes. Embora não fosse uma escola-padrão, como as demais, com carteiras enfileiradas, mesa e quadro-negro, era a primeira vez em que ele poderia viver a rotina de ir para a escola e voltar todo dia ao final da tarde. Com efeito, foi uma experiência nova e marcante para ele. Era tudo diferente do que tinha vivido até então. Quando era menor, em algumas ocasiões, chegou a ir sozinho (de táxi ou com a psicóloga), mas num tempo curto e também foi uma época de completa alienação dele e era bem possível que nem se recordasse daquilo. E depois, em todos aqueles anos em que participou de atividades (a não ser com os irmãos em casa), foram sempre atendimentos especializados que eram realizados individualmente, ao menos a maioria deles.
Na nova etapa, aos poucos foi aprendendo (duramente) a reconhecer o espaço dos outros, muitas vezes se revoltava e ficava nervoso com alguma situação que o contrariava. Mas foi assim, enfrentando as frustrações, se debatendo contra as regras de convivência, que ele ia conseguindo dominar seu anonimato (deixando de lado o ser só) e criando relações, ainda que não ideais, mas que lhe garantiam o direito de ser pessoa, dividir, somar-se, conhecer, adaptar-se.        
Sutilmente ele foi saindo das amarras da família. E crescendo. Com tudo o que tinha direito, mas o processo começou lentamente até se consumar. De início, passou a ir de condução para a escola, dividindo lugares com os demais colegas. Logo após o almoço, enfiava-se no uniforme e aguardava, numa alegria infantil, a chegada do carro. Na infância dele, quando os irmãos menores iam à escola, ficava espiando, frustrado, reprimido pela sua condição de não poder sair sozinho, e àquela altura sentia-se recompensado – era possível deduzir, pela sua postura, o quanto aquela situação nova o confortava.
Nem tudo foi alegria, entretanto.
Houve muitas situações de stress, rompantes de alguns, destemperos entre ele e os colegas dentro do carro, e sempre as pendengas eram contornadas pela generosidade do motorista (“Seu” Nelson), que demonstrava imensa perícia ao lidar com os garotos. Mesmo os casos mais difíceis eram tratados com serenidade por ele, que deixou uma marca indelével na lembrança de todos, quando saiu de lá – a mais compensadoradelas foi a figura de Papai Noel, que sempre encarnou com devoção natal após natal, demonstrando um sincero apego pelos meninos. O “bom velhinho” fazia entrega de presentes, que eram direcionados principalmente para os pequenos, mas os mais velhos também curtiam muito, com seu costumeiro jeito infantil – parecem ter uma alma de criança, aprisionada em um corpo adulto.
Também foi nessa época que Thiago adotou algumas das manias que passou a apresentar rotineiramente, como o hábito de dar uns saltos muito altos de maneira bizarra e seqüencial (copiando atitudes de alguns colegas) e a mais nova e esquisita de todas: certa vez passou a andar em um pé só, com as mãos levantadas até o topo da cabeça. Fazia isso até não mais agüentar e ninguém conseguia dissuadi-lo daquela atitude. Com todos em casa rindo e fazendo pouco caso, ele não teve êxito em levar adiante aquelas esquisitices que, depois de um tempo, por sorte, caíram no esquecimento. 

As atividades do dia-a-dia estavam sendo seguidas à risca, utilizando as recomendações do método TEACCH (no início supervisionado pela AMA-SP), o que dava maior segurança às crianças e jovens que freqüentavam a escola. Além disso, e também com procedimentos de rotina ordenada dentro do próprio método, algumas atividades externas foram sendo incorporadas. No início eram apenas pequenas caminhadas ao ar livre, e após, saída para passeios. Mais tarde eqüoterapia. Também o passeio de ônibus até a chácara do pai de um dos jovens se tornou rotineiro. Em muitas dessas ocasiões Thiago foi colocando à prova sua capacidade de adaptação, nas primeiras saídas desobedecia e algumas vezes adentrava em lanchonetes ou outros estabelecimentos para se apoderar de algum doce ou salgado. Foi preciso um bom número de tentativas até que ele incorporasse as regras e os limites, mas não definitivamente. Parece ser um eterno aprendiz das regras sociais, que não compreende.
Assim como algumas manias acabaram advindo do convívio (o que é normal acontecer), igualmente foi se instalando nele um gosto pela rotina e a repetição, coisa que, embora seja habitual na maior parte dos autistas, não se verificava com ele, até então. Ao menos, não da forma como aconteceu depois – talvez incentivado pelo próprio método empregado no dia-a-dia para a organização das tarefas. Foram comportamentos que com o passar do tempo acabaram sendo assimilados, atenuados e alguns, até, desapareceram.

A certa altura, quando já tinha transcorrido quase dois anos de estada na escola (entre os 18/19 anos), tornou-se imperioso para a completa organização do dia, que ele passasse a freqüentar a escola durante todo o período. Já havia lá outros rapazes fazendo essa experiência e o resultado tinha sido muito bom. Ela estava relutante, ainda, em distanciá-lo na hora do almoço, mas as profissionais explicaram que, principalmente para os mais velhos, essa condição era inevitável para o bom resultado do aprendizado e da adaptação dele.
Aquela foi mais uma das etapas de libertação que todos venceram. O primeiro dia inteiro que a família ficou sem ele em casa.
Foi indescritível a sensação de vazio na primeira refeição sem ele por perto. Ao menos para a mãe. Ainda que nem sempre ele permanecesse sentado à mesa, foram quase vinte anos da presença dominadora que enchia a casa e, embora não conversasse com os familiares, com seus gestos (nem sempre benfazejos, mas monopolizadores) ele agregava presença por onde passava de uma forma impressionante. Sempre teve uma técnica de se fazer presente e um carisma silencioso que era impossível ignorar, mesmo para os estranhos, não era raro que as pessoas (muitas das quais o viam pela primeira vez, como um médico gastroenterologista certa vez num procedimento, que confessou perplexo) fossem tomadas por um sentimento de simpatia em relação a ele.   
A contrapartida aos comportamentos inadequados que desenvolveu lá foi uma melhora no quadro geral, inclusive na alimentação. Reflexo ainda da infância, os alimentos que aceitava eram extremamente restritos e ainda não fazia uso da comida rotineira, sendo necessária, muitas vezes, a ingestão de complementos vitamínicos para repor as necessidades do organismo. Embora no início tenha sido respeitada a dieta caseira (com o objetivo de adaptá-lo), com o passar dos meses foram sendo introduzidos, gradualmente, novos tipos de alimentos, poucos no início, mas a variedade aumentou com o passar do tempo e ele foi aceitando sem perceber. Assim como a comida, também os utensílios domésticos (copos, pratos, talheres) que eram usados para as refeições foram sendo aceitos devagar. 
A maior preocupação da mãe era com a adaptação dele (comida, uso do banheiro, maneira de dormir), mas não demorou muito, já foi possível perceber as vantagens que a nova rotina lhe causava. Justamente a rotina autística que ela tinha procurado banir com todas as forças quando ele era menor (para afastá-lo daquele estado ensimesmado que se apoderava dele de vez em quando), agora estava ajudando, de certa forma, a mantê-lo mais sereno – apesar de salientar seu lado autístico inevitável. Ele já estava sendo capaz de interagir e se sentir bem (a maior parte do tempo) com os amigos e profissionais que atendiam na escola. Embora ainda estivesse longe de ser o ideal. Mas já era um sinal.
 Os anos se passaram.
Até que certa vez, coincidindo com sua pseudo maioridade (21 anos) por um problema familiar, tiveram de se ausentar (todos) para um compromisso, sendo dessa forma necessário que Thiago pernoitasse na escola - que àquela altura funcionava como uma espécie de escola-lar, onde alguns dos rapazes já habitavam.
Foi a mais significativa experiência pela qual todos passaram.
Naquele início de manhã, o sol brilhava de um outono profícuo. Estação de partida. Quando ele atravessou a soleira da porta, olhou ainda mais uma vez (numa costumeira atitude autística repetitiva) dentro da mochila para conferir se as suas coisas estavam ali - solenemente acompanhado por seus quatro cúmplices de jornada, até então: os pais e os dois irmãos. Como num ritual checou as roupas, o par de chinelos para usar de noite antes do sono; a bolsinha com os remédios - cuidados que lhe garantissem a certeza de que ia mesmo para dormir. Do lado de fora, na garagem perto do carro, a mala maior com seus pertences, mais algumas roupas, tênis novo para estrear no primeiro dia de uma “vida independente”, ainda que fosse uma liberdade vigiada, mas eram situações inusitadas que o transformariam numa nova pessoa. Mais dono de si naquele momento. Mas ainda criança. À parte, causando-lhe quase frenesi, estava a maleta de plástico com uma porção de coisas de seu agrado, incluindo os cubos de construir que se mantiveram fiéis ao longo dos anos, numa cumplicidade inanimada e autística difícil de entender – uma demonstração de que aqueles pequenos objetos lhe eram mais caros, até, do que os familiares que poderiam ficar para trás.
Seus valores são outros. 
Nada a lamentar, esse é o seu jeito de se sentir bem.
Felicidade? Sim.
Não na complexidade que a análise sutil dos pensadores já definiu, e que a maior parte das pessoas busca com obstinação encontrar, mas a seu modo de sentir as coisas ela pode ser encontrada no saboroso enlevo de um pequeno detalhe - que infelizmente muitos de nós nunca encontraremos. 
Aprendizado, crescimento, superação.
Numa satisfação única e difícil de mensurar ele estava próximo de realizar a maior proeza de sua vida: ia dormir fora pela primeira vez. Olhou para trás, empunhando orgulhosamente a mochila, como um troféu, e sorriu como se dissesse:

- Agora eu também posso!


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