quinta-feira, 28 de março de 2013

MENTIRAS INOCENTES (texto em prosa - Marilda Confortim)


           A primeira mentirinha inocente que me contaram, foi a do Menino Jesus, que trazia presentes na noite de natal para comemorar o seu próprio aniversário. Achei estranho, mas anos depois, descobri que não era o Menino Jesus quem trazia presentes. Era um tal de Papai Noel. Só que para isso, o pai de verdade devia deixar dinheiro de verdade, o endereço de residência e o nome dos filhos nas Casas Néri, ou Casa Vitória, ou nas Casas Pernambucanas.

           Morávamos na roça e roça não tinha nome de rua, número nem CEP. Mesmo que meu pai se lembrasse do nome dos doze filhos; mesmo que ele tivesse dinheiro para pagar os brinquedos; mesmo que ele explicasse direitinho como chegar na nossa roça, o tal Papai Noel nunca chegaria até lá usando aquele trenozinho ridículo puxado por renas estrangeiras que nem conheciam o Brasil. Nunquinha da Silva! Bom... Já que era aniversário do Menino Jesus, por que eu haveria de ganhar presentes? Conformei-me e esqueci aquele negócio de dia de Natal. 
          
           A segunda mentirinha que me contaram, foi a história do Coelhinho da Páscoa. Não entendi como é que um coelhinho tão pequenino conseguia engolir e depois botar aqueles enormes ovos de galinha pintados com lápis de cor pela minha mãe e recheados com paçoca de amendoim. Eu tinha até nojo de comer aqueles ovos que saiam do ânus do coelho. Quando pedi explicações para minha mãe ela me deu um tapa na bunda e disse que aquilo não era assunto de criança. Aceitei. Havia muito assunto proibido para crianças na minha infância, inclusive aquela história da cegonha que trazia os bebezinhos.

           Na cegonha eu duvidei de cara. Já fui argumentando que não existia cegonha no Brasil. Podia até ser uma garça gigante, um tucano, uma ema ou avestruz. Isso! Era aquela avestruz que vi no campo do nono Marcon. Mas cegonha, jamais. Não existia cegonha no Brasil e ponto!

           Com cinco anos eu já sabia ler e lia todos os jornais que vinham embrulhando as compras feitas na cidade. Foi num desses que li sobre as cegonhas. Pena que rasgaram um pedaço da matéria para usar lá na patente para limpar aquela parte do corpo que é um palavrão e não posso escrever (começa com c e termina com u).
          
           As verdades também me chegavam de maneira cruel. Nas férias, meu irmão mais velho, que estudava no seminário para ser padre, pegou um lampião a querosene (não havia luz elétrica, não), uma laranja, uns limões, pendurou tudo no teto e simulou o sistema solar. Contou que a terra era redonda e acabou com minha mania de procurar tesouros escondidos na ponta do arco-íris. Disse-me que o Sol era só uma estrelinha de quinta grandeza. Que a Lua era um pequeno satélite e São Jorge não morava lá e nem matara nenhum dragão. Dragões não existiam. E se um dia existiram foram extintos como os dinossauros. Dinossauros? Ah, nem quero falar nisso! Ele acabou com minha fantasia!
          
           E o pior de tudo: Ele me disse que aquele cara estranho, quase sem olhos, que aparecia de vez em quando lá em casa, para ensinar meu pai a fazer milho híbrido, enxerto de pêssego com maçã, cruzamento de galinha com peru e outras coisas esquisitas, não era um extra terrestre! Era só um agrônomo japonês. E disse que existiam milhares de japoneses iguais a ele num país chamado Japão. E o Japão ficava do outro lado da terra que agora era redonda. Disse-me que quando era dia aqui, era noite lá.  Naquele país, as paredes das casas e as lanternas eram feitas de papel, porque havia terremotos e vulcões que destruíam tudo e todos. Contou-me que os japoneses comiam cogumelos, peixes crus e transformavam tudo em miniaturas. Até árvores e poesias.
          
           Peguei uma pá e comecei cavar um túnel para atravessar a Terra e ir ao país das coisinhas pequeninas. Eu queria brincar com origamis, aprender a fazer bonsais, hai-kais e conhecer todos os outros agrônomos que viviam lá.
          
           Uma semana depois, quando eu já havia cavado um buraco de quase dois metros de fundura, meu irmão veio me dizer que nem que eu cavasse todos os dias, durante minha vida toda, eu não chegaria ao Japão. E aquelas máquinas que perfuravam poços artesianos, perguntei? Não, também não conseguiriam atravessar a Terra. Eu nunca conheceria o Japão. Chorei tanto, tanto, mas tanto, que o buraco transformou-se num poço de água salgada. Foi aí que conheci o mar.
          
           E a chuva? Bom, a chuva não caia do céu, me disse ele. E o céu? Não era um grande açude de luz, não era azul, nem era lá em cima. Ninguém sabia onde ficava o céu. Talvez nem existisse. E eu que sempre rezava para morrer logo porque queria morar no céu junto com os anjinhos...
          
           E o anjinho da guarda, então! Se não havia céu, onde ele dormia? Aquilo que eu via era um beija-flor, uma libélula, uma ilusão ótica, me disse ele. Ah! Essa não! Conversa pra boi dormir, Eloi. Anjos existem sim!      
          
           Foi então que ele me contou a história de Adão e Eva no paraíso. Falou do pecado original e do castigo. Eu não queria acreditar naquela crueldade cometida por Deus. Leu um trecho da bíblia. Estava tudo lá, na palavra de Deus! Fiquei revoltada. Tudo aquilo por causa de uma maçã? Toda essa desgraçeira no mundo, por causa de uma mísera maçã? Quanto egoísmo, meu Deus do céu! Porque O Senhor não foi buscar maças no pomar lá de casa? Tínhamos muitas macieiras. Dávamos maçãs até para os porcos...

           Foi a primeira vez que duvidei da justiça divina. E pra piorar a situação, meu irmão disse que era pecado mortal duvidar da justiça divina. Eu era uma pecadora! E nem tinha feito a primeira comunhão ainda! Como conviver com meus pecados? Faça o sinal da cruz e reze, disse ele.
          
           Obedeci. Mas ele estranhou o jeito que eu fiz o sinal da cruz. Tá, não era bem uma cruz que eu fazia. Foi quando expliquei: Jesus Cristo (o Filho) morreu na sexta feira santa passada, então só sobraram dois: O nome do Pai e do Espirito Santo, né? Então não existe mais a Santíssima Trindade e sim a Santíssima Dundade. Ele entendeu meu raciocínio, mas estranhou a palavra Dundade e ficou pensando em voz alta: um é unidade; três é trindade; dois é...Dundade? Será que é Dundade? Olhou-me como se me visse pela primeira vez e depois se trancou no quarto o resto do dia, pensativo. Eu continuei com a dúvida, mas para não desgostar ninguém, resolvi incluir todos os membros da família divina no meu sinal da cruz, que ficou assim ó:  Em nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo, e dA Mãe. Foi assim que minha Santíssima Trindade virou Santíssima Quadrundade.
          
           Só pude confessar esses pecados mortais aos oito anos  de idade, quando fiz a primeira comunhão. No confessionário todo furadinho, perguntei ao padre Tedesco se era muito ruim duvidar da palavra dos homens que escreveram a bíblia. E fui perguntando tudo o que já havia perguntado ao meu irmão. Eu precisava de confirmações. O padre que me conhecia desde o nascimento e me acompanhou até a idade adulta, ficou muito preocupado e me mandou rezar o ato de contrição, um monte de ave-marias, salpicar com glória ao pai, creioemdeuspai, salve rainha (essa oração era tão triste e tinha umas palavras complicadas...) e deixar aquelas conversas para quando eu fosse maior de idade. Nunca mais tocou no assunto e por penitência, me proibiu de “paquerar” os seminaristas que estudavam comigo. Senti muito. Eu sempre colocava no bolso deles uma trovinha popular que dizia assim: ” Tu que amas a Cristo / que morreu por tanta gente / porque não amas a mim / que morro por ti somente?”.  
          
           Tive certeza que as pessoas inventavam coisas em nome de Deus e usavam o Seu Santo Nome em vão, no dia que morreu meu irmãozinho. Disseram-me que ele foi pro limbo porque era mongoloide e não tinha sido catequisado. Mongoloides são vocês que não entendem o que meu irmãozinho fala, nem sabem tocar gaita de boca, nem flauta, nem violão como ele, oras! Mongoloides são vocês, seus burros! Vocês é que vão queimar no fogo do inferno por falarem mal do meu irmão!
          
           Durante seis belos anos convivi com meu irmão, Cláudio, portador da Síndrome de Down. Éramos inseparáveis. Passávamos os dias no porão de casa, bebendo vinho doce, comendo salame, torresmo, queijo e inventando instrumentos musicais. Cantávamos músicas de nossa autoria. Ele era um grande compositor. Imagine! Aquela criaturinha no limbo, todo sujo, cheio daquelas porcarias que os diabinhos jogam nos limbos... Pessoas felizes e carinhosas como ele não vão para o limbo. Nunca cometeu um pecado sequer. (Matar formiga com um pauzinho não é pecado, é?). Onde eu iria parar quando morresse, então? Os padres que me desculpem, mas pro quinto dos infernos eu não vou, nem morta!  
     
      A última mentira que me contaram foi a mais cruel de todas.  O efeito dela, dura até hoje. Falaram-me de uma coisa chamada “FUTURO”. Um lugar parecido com o paraíso antes da expulsão de Adão e Eva. No futuro, tudo seria maravilhoso, me disseram. Eu só precisava ter fé, estudar, trabalhar, ser honesta, respeitar o próximo e a natureza. Disseram que tudo o que eu plantasse na infância e adolescência, colheria no futuro.

Por precaução, passei a plantar todas as sementes de maçã que comi na vida. E sempre guardei algumas maçãs de reserva. Fiz tudo direitinho: Estudei, trabalhei, fui honesta, tive fé e até hoje nunca deixei faltar maçãs na fruteira da minha casa.

Caso de ELE apareça no meu futuro, vou lhe dar de presente um saco cheinho de lindas maçãs brasileiras e argentinas, e pedir para que ELE esqueça aquela bobagem de pecado original.


FIM

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